O Pistolão e a Corrosão do Bem Público

 


                                                                 Foto Flávio Pinto 


A prática do pistolão — a utilização de influência política ou pessoal para obter
vantagens indevidas — é uma chaga antiga na sociedade brasileira. Em uma
democracia que se pretende sólida e baseada no Estado de Direito, não há espaço para
que interesses particulares, sejam eles de indivíduos, grupos ou partidos, se
sobreponham ao interesse coletivo. 

A verdadeira vontade popular, expressa nas urnas,
só será respeitada se os cargos públicos forem ocupados por critérios técnicos, e não
por conveniências políticas ou favores pessoais.

A Constituição de 1988 buscou eliminar pressões indevidas no serviço público, mas
deixou uma brecha perigosa: o pistolão para a carreira. Nele, o que vale não é o
mérito, mas a influência de um "padrinho". A máxima "o negócio é você entrar, o resto
eu arranjo" resume essa distorção, que substitui a verdadeira carreira
pelo carreirismo — a busca por posições rendosas sem qualquer compromisso com a
competência ou o aprimoramento profissional. Os resultados são devastadores:
prejuízos à eficiência do Estado e a frustração de profissionais qualificados, preteridos
por indicações políticas.

O Triângulo do Pistolão: Padrinho, Afilhado e Intermediário

Nessa engrenagem perversa, três figuras se destacam:
1. O Padrinho — Seja por prestígio político ou relações pessoais, é quem abre as
portas ilegitimamente. Age movido por lealdades privadas, não pelo bem
comum.
2. O Afilhado — Muitas vezes incompetente ou despreparado, é colocado em
posições que não merece, tornando-se um peso para a administração.
3. O Intermediário — O diretor ou chefe que, por fraqueza ou conivência, cede às
pressões e corrompe o sistema a partir de dentro.
Esse triângulo é uma máquina de destruição do interesse público. Suas pontas afiadas
furam qualquer política séria, qualquer plano que beneficie a coletividade.

A Democracia Exige Impessoalidade

Ainda que o pistolão tenha diminuído em alguns setores, sua erradicação definitiva é
urgente. Uma democracia só se fortalece quando o Estado funciona com eficiência
impessoal, quando cargos são preenchidos por capacidade, não por apadrinhamento.

O paternalismo político é um resquício arcaico, incompatível com um país que almeja
ser justo e desenvolvido.
É hora de substituir a cultura do favor pela cultura do mérito. Só assim o serviço
público será digno da confiança da sociedade.

Francisco Leopoldo Martins Filho
Advogado
Membro Efetivo da Comissão Direito Eleitoral da OAB/CE

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